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CLUBE DA MADRUGADA: 60 ANOS | 7 – Blog do Coronel Roberto
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CLUBE DA MADRUGADA: 60 ANOS | 7

CLUBE DA MADRUGADA: 60 ANOS | 7



 
Na semana de aniversário do Clube da Madrugada, outro presente. Na revista Madrugada, cuja edição foi tipo Momo: primeira e única, veio estampado um poema, longo poema do fundador Luiz Bacellar.
O GATO
Luiz Bacellar
O GATO permanece estático no tempo
e se faz dinâmico na memória
enquanto fumo o cigarro inglês:
— esfinge
pela posição das
patas dianteiras
e do rabo. Os olhos
fixos num ponto
móvel: aranha. Que
cautelosa conserta
sua teia: um velho pes-
cador em cais an-
tigo — a remendar
sua esburacada
rede de pescar,
pela noite adentro
Página do Madrugada com o poema
essa vida surda
embebe o silêncio
como frio no ar.
Tal a poesia:
como mariposa
vem indiferente,
vem noturna, e pousa
sobre este papel.
Escuto o tempo fluindo:
estou fundindo na névoa.
Um mosquito enrola o fio,
o longo fio de som.
As tábuas velhas estalam,
Serão as almas penadas?
Não: é o estuque que cai.
que cai das paredes velhas.
A casa vive, respira,
e, num ofego, se encolhe
como o cururu que mora
em baixo da Cantareira
escorada e carcomida
que suporta o velho pote.
Mas agora são os gatos, (os
Outros, não
Este aqui: é
Muito pouco boêmio,)
que se rasgam no telhado
e quebram todas as telhas. (De
súbito,
as formas das
coisas se dissolvem
no escuro: a luz elétrica
se ausentou. PARO
DE ESCREVER. Busco
fósforos. Não
encontro. Uma
parede a mim se encosta em
vacilante ajuda. Os gestos
perdem seu significado. A
mesa. as cadeiras,  os
óculos, o bule de chá, as
meias e os sapatos vazios
de meus pés, e o livro
de poemas, adquirem
um senso tátil: dureza
e maciez. Ou olfativo:
o querosene
da lamparina. Somente
o gato percebe
movimentos: baratas
que passam.
Ele salta. O ruído me
assusta. Meus dedos
encontram a lanterna
elétrica. O jato
corrói a escuridão e
acende-lhe as pupilas: dois topázios.)
A luz
voltou. As coisas retomam
suas formas. Estalam: o gato
brinca com uma folha-seca.
— Pssschrrrut!…
Num breve
Miado, — como quando lhe abro
a porta
depois de muito arranhar, — pula
sobre a mesa. Brinca
com o papel em que escrevo
o poema. Mordica-
me os dedos, numa demonstra-
çao felina de carinho. Os
seus bigodes, antenas
da afeição, roçam de leve
na minha mão. Uma lágrima
cai-
lhe
do olho esquerdo. Chora? Não
sei. Apenas sei
que:
as pupilas do gato crescem com a sombra.

10-3-54  (SENTIMENTO DO TEMPO)

Roberto Mendonça
Roberto Mendonça
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